Não há “pechinchas” sem danos colaterais (em crianças reais)

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Não há “pechinchas” sem danos colaterais (em crianças reais)

Qualidade elevada e baixos preços. A promessa é de vendedores de rua que abordam quem passa para lhes falar de um serviço de entrega de fruta ao domicílio: é só marcar uma hora e o produto de qualidade irá ter a casa. O início suave do filme da associação Comércio Justo é logo depois intercalado com o choque. A mensagem em fundo preto — “a comida barata na rua significa muitas vezes que alguém está a pagar esse preço [que o consumidor não paga]” — antecede imagens que ninguém gostaria de ver: crianças em camiões, crianças que são obrigadas a trabalhar. Porque esses baixos preços mantêm as quintas de produção em países em desenvolvimento condenadas à pobreza, porque os trabalhadores não têm acesso a cuidados de saúde e não há segurança no trabalho. E se soubéssemos o que está por detrás da “pechincha” que damos por alguns produtos? Agiríamos de forma diferente? O vídeo do Comércio Justo — chamado O serviço de entrega ao domicílio que nunca imaginaram — quer pôr os consumidores de países desenvolvidos a reflectir. Alguma vez pensaram sobre a origem dos produtos que compram? Que as nossas opções têm consequências directas na vida de pessoas — de crianças — noutro lado do mundo? Ao ver as crianças sair do camião e carregar caixas de fruta até à porta de casa, a reacção é de consternação e espanto: “Por que é que estão estas crianças aqui?”, pergunta uma das senhoras que pediu a entrega em casa. “Quer preços baixos? Isto é o que temos de fazer”, responde um homem que acompanha as crianças. “Se soubesse disto não teria feita a encomenda”, reage outra consumidora. É essa a mudança que o Comércio Justo tenta fazer: mudar consciências para que seja possível pagar de forma justa às pessoas que trabalham em quintas de países em desenvolvimento. A associação criou um guia, disponível online, para quem quer mudar comportamentos e optar por comércio justo, e há ainda uma petição, onde se pede a Liam Fox, Secretário de Estado do Comércio Internacional no Reino Unido, que interceda no assunto. Em Portugal há alguns produtores a apostar na agricultura sustentável e sem químicos — há entrega porta a porta e os preços, garantem, são justos. Porque, na verdade, não há “pechinchas” sem danos colaterais.

Texto do P3